sábado, 16 de novembro de 2013

Parágrafo teresiano


Estava em casa dum irmão de meu pai. Quis meu tio que eu estivesse com ele uns dias. Seu exercício era ler bons livros. Fazia-me ler-lhe esses livros e, embora não amiga deles, mostrava que sim; porque nisto de dar contentamento a outros tenho tido cuidado, mesmo que me cause pesar.
Valha-me Deus, por que meios me andava Deus dispondo para o estado em que Se quis servir de mim! Sem o querer, forçou-me a eu me fazer força!
Embora os dias que lá estive fossem poucos, com a força que faziam no meu coração as palavras de Deus, tanto lidas como ouvidas, e a boa companhia, fui entendendo a verdade tal como em pequena: que tudo era nada. E, embora a minha vontade não acabava de se inclinar a ser freira, vi, no entanto, que era o melhor e mais seguro estado e assim, pouco a pouco, determinei-me a forçar-me para o tomar.
Deu-me vida o já ser amiga de bons livros. Lia as cartas de São Jerónimo, e estas animavam me tanto que determinei dizê-lo a meu pai. O que para mim era quase como vestir o hábito. Era tão briosa que não voltaria atrás, por coisa nenhuma tendo-o dito uma vez...

SANTA TERESA DE JESUS (1515 - 1582)
LIVRO DA VIDA 3:4.5.7

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