sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Uma história com flamingos


Como um caminho a Quaresma conduz-nos à Páscoa. Podemos, porém, actualizar a imagem e dizer que a Quaresma é uma auto-estrada. A estrada é mais rápida que o caminho. E a auto-estrada, então... Esta tem, porém, outra característica que nos ajuda a reflectir: tem saídas várias antes do fim. Antes do fim (a Páscoa) existem um sem número de saídas que podem impedir de chegarmos à meta.
O Evangelho deste domingo diz-nos que Jesus conversava com Moisés e Elias. Sabe de que conversavam? Exactamente disso: da sua saída, do seu êxodo, da sua paixão e morte, do seu regresso à casa do Pai. O Evangelho diz que aceitando a sua paixão e morte Jesus diz sim à vontade do Pai.
No fim, por fim, também nós nos iremos aproximando da última saída. Não importarão os descaminhos percorridos nem as saídas feitas ao engano. Ela aprochegar-se-á. Por fim, apresentar-se-á à nossa vida a última saída: a casa do Pai! O Céu para sempre! Até lá há muito que (bem) percorrer.
Que belos e elegantes são os flamingos! Até a cor é bela. (Para quem gosta do rosa, claro está!) As patas são finíssimas, o pescoço elegante! E a cor rosa a completar.
Consta, porém, coisa que nunca vi, que não são sempre formosos e belos. Consta que nos primeiros anos a sua penugem puxa para o cinzento e o esverdeado. Não são nada belos! Mas aos três anos as jovens aves transfiguram-se e transvestem-se em aves de sonho.
O que também não sabia mas a National Geografic ensinou é que é pela alimentação que elas se transfiguram e se convertem em pássaros belos e elegantes, aqueles cujas fotos tanto gostamos de admirar! Os flamingos comem algas e camarões, e é tal comida que alimenta os seus corpos esbeltos e lhes dá a cor rosa! Não deixa de ser surpreendente tão curiosa mudança de look!
Ora veio-me à lembrança esta historieta por ser hoje o Domingo II da Quaresma, domingo em que lemos no Santo Evangelho a Transfiguração de Jesus ocorrida no Monte Tabor.
Narra o Evangelho que, sob o olhar atento dos três discípulos mais queridos – Pedro, Tiago e João – Jesus se transfigurou, o seu aspecto mudou e o seu rosto ficou cheio de glória e luz.
É um Evangelho incómodo!
Como vamos nós, pregadores, falar duma glória que jamais vimos? Como terá sido a
transfiguração de Jesus? Como dizer a
transformação que Nele se operou e os três discípulos tão bem (pres)sentiram que ficaram como bobos?
A quase única e marcante transformação que conhecemos é a da chegada das rugas da cara e das brancas do cabelo. Mas será isso a Transfiguração? E não será também verdade que tantas vezes o nosso espírito engelha em vez de rejuvenescer?
Por outro lado, como é bom poder esperar que o que Cristo preanuncia na Transfiguração se
há-de realizar em nós um dia!
Bendita transformação que aguardamos!
Como é bom poder esperar que o que Cristo preanuncia na Transfiguração tenha tão longo alcance que renove todas as coisas e a todas transfigure: os homens e as mulheres, os jovens e os velhos, os crentes e os descrentes, os sacerdotes e os leigos, os peregrinos e os eremitas, todos os que foram mordidos pelo mal e os que nele vivem amordaçados, e toda a realidade conhecida e a desconhecida, os animais, as aves, os vegetais, as flores, os frutos e as sementes, todos os elementos e todo o universo que escapa à inteligência e à imaginação.
Um dia tudo será transfigurado! Um dia tudo será novo e belo como uma noiva adornada! Um dia – sim, um dia! Mas quando será esse dia? – Cristo será inteiramente glorioso e belo!
Ó Belo Cristo, um dia serás inteiramente em nós! Serás inteiramente a nossa glória e a nossa luz! Entretanto, enquanto não chega essa alvorada sem fim, esse dia sem entardecer, cabe-nos a imensa tarefa de trabalhar para transformar a realidade humana até a elevar à justa justiça. Será tarefa extenuante e
aparentemente inalcançável, mas à qual a nossa colaboração se exige embora chegue sempre tardia e em déficit.
Mas sim, um dia Jesus subiu a uma montanha e transfigurou-se e assim revelou a sua real identidade. Pedro, Tiago e João assistiram boquiabertos ao mais inaudito show da história, contemplaram Jesus com Filho de Deus. Mas como não se pode ver a Deus e continuar vivo, os discípulos adormeceram e de nada se aperceberam e por isso não puderam contar o que não viram.
No domingo passado o Evangelho recordou--nos que todos estamos expostos à tentação. Várias vezes.  Hoje, a Transfiguração recorda-nos que todos somos convidados a
transformar a vida pelo encontro com Jesus. Custa subir ao Monte? – Custa. Custa vir à igreja ao domingo? – Também. Mas é com Jesus e por Jesus – comendo-O! –  que nos renovamos, nos transformamos e, por fim, nos havemos de revestir da sua glória.
Esta é uma história com flamingos, mas não só, porque todos somos o que comemos.

Chama do Carmo I NS 177 I Fevereiro 24 2013

Jovens em retiro


Algumas jovens da nossa comunidade estão desde esta noite em retiro. Foram para a Casa do Menino Jesus. O tema é um ensinamento de nosso Pai São João da Cruz: «Busca-O com fé e amor». Serão dois dias de silêncio e oração em comunhão com outros jovens carmelitas nos ares frescos de Avessadas.

Candidaturas e orações


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Que o Senhor nos ajude a dar esmola

 

«Um dos preceitos a que os católicos devem estar atentos durante a Quaresma é o de dar esmola aos pobres. Mas atenção: a forma correcta de dar esmolas não é dar dinheiro às pessoas que mendigam nas ruas, e sim ajudar uma instituição de caridade séria, ligada ou não à Igreja.»
Esse foi um trecho de uma homilia na missa da última Quarta-feira de Cinzas. O padre está certo?
Depende. Nas grandes cidades, não são raros os pedintes que chegam a ganhar bem mais do que um trabalhador assalariado!
Por outro lado as maiores vítimas das esmolas irresponsáveis são as crianças. A esmola torna mais difícil convencer as crianças dos aspectos negativos da rua.
«Ah, mas eu nunca dou dinheiro. Dou roupas ou comida.» Dá quase no mesmo, amigo. Qualquer doação pode servir como um incentivo para que a pessoa se acomode na situação de pedinte.
«Então, o que devo fazer quando uma pessoa me pede ajuda na rua?» A única resposta honesta que tenho para dar é NÃO SEI! Não há uma fórmula exacta para resolver a questão, mas é importante discutirmos o problema. Vamos reflectir um pouco antes de dar esmolas. Sendo certo que existem casos em que uma pessoa na rua realmente deve ser assistida com comida, roupas ou dinheiro.
A decisão não é óbvia, nem fácil. Pesando todos os factores relacionados à esmola, procuremos usar o bom senso e orar. Lembremos sempre que um pobre que sofre é Jesus que sofre.
Que o Senhor nos dê o amor, a generosidade e o discernimento necessários.

Recolhido


Chama do Carmo_176

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Sobre a renúncia


Tenho 23 anos e ainda não entendo muitas coisas. E há muitas coisas que não se podem entender as 8h da manhã quando te acordam para dizer em poucas palavras: “Daniel, o papa renunciou.” Eu apressadamente contestei: “Renunciou?”. A resposta era mais que óbvia, “Renunciou, Daniel, o papa renunciou!”.
O papa renunciou. Assim amanheceu escrito em todos os jornais, assim amanheceu o dia para a maioria, assim rapidamente alguns tantos perderam a fé e outros muitos a reforçaram. Poucas pessoas entendem o que é renunciar.
Eu sou católico. Um de muitos. Desses que durante sua infância foi levado à missa, cresceu e criou apatia. Em algum ponto ao longo da estrada deixei pra lá toda a minha crença e a minha fé na Igreja, mas a Igreja não depende de mim para seguir, nem de ninguém (nem do Papa). Em algum ponto da minha vida, voltei a cuidar da minha parte espiritual e assim, de repente e simplesmente, prossegui um caminho no qual hoje eu digo: Sou católico. Um de muitos sim, mas católico por fim. Mas assim sendo um doutor em teologia, ou um analfabeto em escrituras (desses que há milhões), o que todo mundo sabe é que o Papa é o Papa. Odiado, amado, objeto de provocações e orações, o Papa é o Papa, e o Papa morre sendo Papa. Por isso hoje quando acordei com a notícia, eu, junto a milhões de seres humanos, nos perguntamos “por que?”. Por que renuncia senhor Ratzinger? Sentiu medo? Sentiu a idade? Perdeu a fé? A ganhou? E hoje, 12 horas depois, creio que encontrei a resposta: O senhor Ratzinger renunciou toda a sua vida.
Simples assim.
O papa renunciou a uma vida normal. Renunciou ter uma esposa. Renunciou ter filhos. Renunciou ganhar um salário. Renunciou a mediocridade. Renunciou as horas de sono pelas horas de estudo. Renunciou ser só mais um padre, mas também renunciou ser um padre especial. Renunciou preencher a sua cabeça de Mozart, para preenchê-la de teologia. Renunciou a chorar nos braços de seus pais. Renunciou a, tendo 85 anos, estar aposentado, desfrutando de seus netos na comodidade de sua casa e no calor de uma lareira. Renunciou desfrutar de seu país. Renunciou seus dias de folga. Renunciou sua vaidade. Renunciou a defender-se contra os que o atacavam. Sim, isso me deixa claro que o Papa foi, em toda sua vida, muito apegado à renuncia.
E hoje, voltou a demonstrar. Um papa que renuncia a seu pontificado quando sabe que a Igreja não está em suas mãos, mas nas mãos de alguém maior, parece ser um Papa sábio. Nada é maior que a Igreja. Nem o Papa, nem seus sacerdotes, nem os laicos, nem os casos de pedofilia, nem os casos de misericórdia. Nada é maior que ela. Mas ser Papa nesse tempo do mundo, é um ato de heroísmo (desses heroísmos que acontecem diariamente em nosso país e ninguém nota). Recordo sem dúvida, as histórias do primeiro Papa. Um tal… Pedro. Como morreu? Sim, em uma cruz, crucificado igual ao teu mestre, mas de cabeça para baixo. Hoje em dia, Ratzinger se despede de modo igual. Crucificado pelos meios de comunicação, crucificado pela opinião pública e crucificado pelos seus irmãos católicos. Crucificado pela sombra de alguém mais carismático. Crucificado na humildade que tanto dói entender. É um mártir contemporâneo, desses que se pode inventar histórias, a esses que se pode caluniar e acusar a vontade, que não respondem. E quando responde, a única coisa que faz é pedir perdão. “Peço perdão pelos meus defeitos”. Nem mais, nem menos. Quanta nobreza, que classe de ser humano. Eu poderia ser mórmon, ateu, homossexual e abortista, mas ver uma pessoa da qual se dizem tantas coisas, que recebe tantas críticas e ainda responde assim… esse tipo de pessoa, já não se vê tanto no mundo.
Vivo em um mundo onde é engraçado zombar o Papa, mas que é um pecado mortal zombar um homossexual (e ser taxado como um intolerante, fascista, direitista e nazista). Vivo em um mundo onde a hipocrisia alimenta as almas de todos nós. Onde podemos julgar um senhor de 85 anos que quer o melhor para a Instituição que representa, mas lhe indagamos com um “Com que direito renuncia?”. Claro, porque no mundo NINGUÉM renuncia a nada. Ninguém se sente cansado ao ir pra escola. Ninguém se sente cansado ao ir trabalhar. Vivo um mundo onde todos os senhores de 85 anos estão ativos e trabalhando (sem ganhar dinheiro) e ajudam às massas. Sim, claro.
Mas agora sei, senhor Ratzinger, que vivo em um mundo que vai sentir falta do senhor. Em um mundo que não leu seus livros, nem suas encíclicas, mas que em 50 anos se lembrará como, com um simples gesto de humildade, um homem foi Papa, e quando viu que havia algo melhor no horizonte, decidiu partir por amor à sua Igreja. Vá morrer tranquilo senhor Ratzinger. Sem homenagens pomposas, sem um corpo exibido em São Pedro, sem milhares aclamando aguardando que a luz de seu quarto seja apagada. Vá morrer, como viveu mesmo sendo Papa: humildemente.
Bento XVI, muito obrigado por renunciar.
Daniel, 23 anos

Com amor, com humor!


Grazie! Obrigado!

Hoje, ao meio dia, ao rezar o último Angelus, o Papa Bento XVI disse: «A todos agradeço a oração e o carinho. Peço-vos que continueis a rezar por mim e pelo próximo Papa. Não tenhamos medo de também nós entrarmos em combate contra o espírito do mal.»

(Im)Poder

O rapaz olhou a frase que colocaram debaixo da sua porta: »Você será assassinado agora!»
Era uma piada: estava na casa de um mestre espiritual, em perfeita segurança. No minuto seguinte, a luz apagou-se. O seu coração deu um salto. Começou a escutar passos dirigindo-se  para o seu quarto. Tentou abrir a janela, mas ela estava bem trancada. O rapaz ficou apavorado e pensou: «Querem-me matar!”
A maçaneta girou lentamente, a porta rangiu, e um homem alto entrou. «VÃO ME MATAR!», o rapaz começou a gritar.
O mestre acendeu a luz, e olhou o rapaz, encolhido de medo. «Viu como é grande o poder das palavras? Mesmo que não houvesse qualquer motivo para matá-lo, uma simples frase fez com que você acreditasse neste absurdo.»

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Quem não se converte não se diverte

Como Igreja caminhamos já rumo à Páscoa, isto é, estamos em Quaresma. A Quaresma é isso mesmo, caminho feliz para a Páscoa. Em si mesma ela não tem sentido. Fechada em si mesma ela não tem razão de existir. A Quaresma não é um tempo forte ou importante por si mesmo, mas por causa da Páscoa. É uma preparação. Estando em Quaresma encontramo-nos desde já a celebrar a Páscoa:
por um lado, contemplamos a Páscoa desde longe; por outro, participamos já da Páscoa de Jesus.
A celebração dos sacramentos do Baptismo, Confirmação, Reconciliação e Eucaristia introduzem a nossa vida nos mistérios de Jesus, na Sua Páscoa. Os sacramentos marcam-nos encontro com Jesus. E a Quaresma é tempo de serenamente regressarmos aos sacramentos.  O tempo quaresmal é um longo tempo baptismal: somos chamados da morte para a vida, somos convidados a morrer para o nosso pecado e a ressuscitar com Cristo, nossa verdadeira vida.
Não é sem alguma surpresa que chega a Quaresma. Mas também é verdade que chega desejada. Ela chega, enfim, quando por fora a natureza começa a sobressaltar-se com a renovação. E é óbvio que por dentro queremos acompanhar o ritmo natural. (Sim, somos mais sensíveis ao exterior que ao interior, mas o movimento é ao invés.)
A Quaresma chega sempre rápido de mais, já que nos custam os exercícios que ela nos propõe. Mas chega com um apelo a que todos somos naturalmente sensíveis: mudança.
Três são os exercícios que podem ajudar-nos na nossa caminhada de mudança e conversão, a saber: oração, mortificação e caridade.
Nestes dias até à Páscoa deveríamos andar mais disponíveis e abertos para a atenção e o diálogo íntimo com o Senhor, falar-Lhe com simplicidade, dizer-lhe o tudo e o nada, dores, mágoas, rupturas. E conquistas e sonhos. E assim, por que não participar diariamente ou mais assiduamente na Eucaristia? Por que não ler diariamente a Palavra de Deus que a Igreja propõe? – Se não sabe como, pergunte a um sacerdote. Ele saberá orientar essa boa leitura. Por que não rezar Laudes e Vésperas? – Pode vir rezá-las com a Comunidade do Carmo, às 7:30h e 19:00h; faça-se avisar previamente, por favor. Por que não (re)ler a Paixão do Senhor, sobretudo nas Quartas e Sextas-feiras? Por que não venerar a Paixão do Senhor meditando os Passos da Via Sacra? – Nas nossas paisagens existem muitos colinas com via sacras e calvários, testemunhos artísticos dos últimos passos de Jesus na terra, porque não visitá-los e percorrê-los? Por que não, neste tempo, dar mais espaço ao crucifixo, colocá-lo em lugar de maior realce em sua casa?
Neste dias poderíamos andar mais disponíveis para a mortificação, através da prática do jejum e da abstinência. O jejum deve praticar-se na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa e supõe fazer apenas uma refeição frugal (mas além desta deve fazer-se sempre o pequeno almoço.). A abstinência de carne (ou de comidas avantajadas) deve praticar-se obrigatoriamente às Sextas-feiras. Tudo tem uma fundamentação, e por isso a abstenção não é só de carne, mas de tantos meios de consumo e de tantos estímulos em que andamos encharcados. O homem só é ele mesmo quando consegue dizer não aos desequilíbrios em que escorrega a fim de viver melhor o domínio equilibrado de si mesmo.
Por sua vez, a prática da caridade abre os nossos corações encastelados e deixa entrar neles os frágeis e necessitados. Tu vais jejuar nesta Quaresma. Então, por que não cresces na renúncia e no desapego? Por que não te desprendes dos tostões que poupas e ajudas um pobre? – Talvez não seja necessário dar-lhe dinheiro, talvez apenas precise duma palavra de orientação, de uma companhia e uma mão-cheia de arroz: por que não lho dás? Podemos ter muitas coisas legítimas conquistadas pelo nosso suor e dinheiro, mas de que valerá isso se alguém ao teu lado tem frio e continua a precisar de se vestir, tem fome e precisa de comer?
Podemos ficar parados? Parar não é vida, não é Quaresma. É preciso mudar. E mudar é para corajosos, para gente insatisfeita e capaz de  sem medo botar os pés ao caminho. Não penses na Quaresma como um ataque à tua vida, mas aos vícios que arruínam a vida. O que não é vida não convive bem com Jesus, por isso a Quaresma nos chama a quebrar as amarras que nos amarfanham, e chama-nos para a liberdade interior que cura as nossas feridas e nos abre para o abraço fraterno.
A Quaresma é para campeões: ela abre-nos a possibilidade de encantamento com Jesus, para O conhecermos melhor, para O amarmos ardentemente e O seguirmos generosamente. Se sentires os olhos de Jesus nos teus não os baixes, mas fixa-te Nele porque o seu olhar é amar. A amizade com Jesus abre-nos para grandes possibilidades. Viver sem conversão não tem piada: Quem não se converte não se diverte! E, afinal, ao que parece, o único lugar que não tem mesmo piada alguma nem alguém a rir-se é o Inferno. A evitar!

Chama do Carmo I NS 176 I Fevereiro 17 2012

Quem é o primeiro?

O Papa João XXIII, interrogado por um estudante num Colégio universitário pontifício: "Santidade, como é sentir-se o primeiro?", terá respondido: "Está enganado. Pus-me a contá-los e eu, lá no Vaticano, devo ser o quarto ou quinto!"

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Mensagem Quaresmal de D. Anacleto Oliveira


A CARIDADE COMO VIVÊNCIA DA FÉ E ANÚNCIO DO EVANGELHO

1. Chegaram os dias de penitência: expiemos nossos pecados e salvaremos nossas almas. É com estas palavras que a Liturgia das Horas, numa das antífonas da Hora Intermédia de Quarta Feira de Cinzas, nos anuncia o tempo da Quaresma e nos indica como vivê-lo: na penitência, isto é, no arrependimento dos pecados e na conversão a uma vida de acordo com a nossa fé em Deus, o único que nos pode salvar.
Esta penitência e a consequente expiação ou reparação do mal causado pelo pecado têm de ser concretas. O Catecismo da Igreja Católica (n.º 1434) destaca as três formas em que a Escritura e os Padres da Igreja mais insistem: o jejum, a oração e a esmola. E fundamenta assim a sua importância: nelas cada um de nós exprime “a conversão em relação a si mesmo, a Deus e aos outros”. Alarguemos pois as nossas vidas a estas três dimensões, e receberemos de Deus a salvação prometida.
2. Para isso, atendamos ao aviso de Jesus no início da Quaresma: Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Aliás, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus (Mt 6, 1). Não teremos recompensa, porque na prática a rejeitamos à partida. Quem jejua, reza ou dá esmola, para dar nas vistas ou obter outros dividendos, fecha-se ainda mais nos limites do seu egoísmo e rejeita o amor infinito com que Deus nos conquista para a fé – aquela fé que, no dizer de São Paulo, actua pela caridade (Gl 5, 6).
E se esta caridade, como a fé em que está enraizada, é dom de Deus, não pode reduzir-se à oferta do que nos sobeja. Não é assim que os verdadeiros pais amam os filhos. Nem é assim que nos ama o nosso Pai que está nos Céus. Pelo contrário: sem o merecermos, deu-nos Jesus Cristo, seu Filho Único; e Jesus por todos ofereceu toda a sua vida na cruz, abrindo-nos assim o caminho para o triunfo definitivo sobre o egoísmo, o pecado e a morte.
3. Quer isto dizer que tanto o jejum e a abstinência como a oração devem, por um lado, conduzir-nos à prática da caridade e são, por outro lado, condição para a sua autenticidade. Abstemo-nos até daquilo que nos pode fazer falta, para o oferecermos aos outros; rezamos com maior intensidade, para nos darmos mais pelos outros. Por outro lado, sem o auxílio divino da oração e a renúncia a nós próprios, dificilmente viveremos para os outros, com a caridade pura e incondicional, ilimitada e persistente do nosso Deus.
Juntemos as três formas de penitência nesta sua complementaridade, e faremos da caridade, neste Ano da Fé, o anúncio mais eficaz do Evangelho em que acreditamos e de que o mundo tanto precisa. Para nós, é muito mais fácil falar daquilo que já se manifesta nas nossas vidas. E para quem nos escuta é muito mais convincente o que já vê ao vivo em nós.
4. Foi nesse sentido que, depois de ouvir o Conselho Presbiteral, escolhi os três destinos que, neste ano e em partes iguais, daremos ao contributo penitencial recolhido na nossa Diocese:
- A nível paroquial, as Conferências de São Vicente de Paulo da Diocese. São um movimento socio-caritativo há muitos anos activo entre nós e no qual a ajuda aos mais carenciados é prestada de modo absolutamente gratuito e a partir da permanente comunhão com Deus, pela oração.
- A nível diocesano, o Centro Pastoral Paulo VI de Viana do Castelo. É um lugar de espiritualidade onde muitíssimos cristãos, sobretudo da nossa Diocese, têm encontrado o caminho para Deus e para os outros e que, dentro em breve, irá ser sujeito a profundas obras de conservação e restauro.
- A nível internacional, um lar para estudantes mais pobres, a ser construído na Missão de Itoculo, da Diocese moçambicana de Nacala. Nela trabalha, com outros sacerdotes e religiosas, o Padre Raúl Viana (um espiritano de Vitorino de Piães, Ponte de Lima), na evangelização e na promoção humana de pessoas carenciadas de toda espécie de bens.

Viana do Castelo, 13 de Fevereiro de 2013 – Quarta Feira de Cinzas
† Anacleto Oliveira

Bem-haja, Santidade!


A Sua Santidade, o Papa Bento XVI
Bem-haja, Santidade!

É o que sentimos e temos necessidade de Lhe dizer, depois de que a notícia da sua renúncia ao ministério pontifício tenha alcançado a nossa família de carmelitas descalços e descalças com a velocidade dum relampago, de norte a sul, de este a oeste. As suas palavras comoveram-nos profundamente.
Entre os sentimentos que nos inundam, prevalece em nós, acima de tudo, a gratidão. Como tantos milhões de fiéis em todo o mundo, também nós, membros do Carmelo Teresiano, monjas, frades e leigos, queremos exprimir-lhe o nosso grande e sentido reconhecimento.
Nestes anos de serviço à Igreja na cátedra de Pedro, vimos em si uma porta aberta que é preciso cruzar para crer em Jesus e isto nunca podemos agradece-lo a si suficientemente, com todo o calor e paixão, herdados da nossa Santa Madre Teresa de Jesus. O nosso coração, onde chegava, dia após dia, com delicadeza e profundidade, o seu anúncio do Evangelho, deixou-se plasmar pelas suas palavras de Pai e Mestre. Com alegria e fé percorremos o caminho, para o qual nos conduziam, saboreando cada dia mais a beleza da fé. E permita-nos hoje, Santo Padre, que contemplemos a sua vida e o seu exemplo à luz dos versos de São João da Cruz: “De alma me consagrei, ao seu serviço e todo o meu haver, e já não guardo a grei, nem tenho outro mister: pois já somente amar é meu viver”.
Na sua mensagem disse-nos que agora o seu serviço à Igreja se manifestará sobretudo na oração. Que bem compreendemos o valor e a grandeza deste serviço no Carmelo teresiano!
Permita que o acompanhemos neste serviço em busca do Amado!
Queríamos dizer-lhe com simplicidade que ainda temos falta de si e que, se não poderemos fruir mais das suas palavras, contamos com o seu amor silencioso, com a sua oração escondida, e com a sua intercessão fraterna. A fragilidade que hoje experimenta transformá-la-á Deus em força para nós, capaz de animar o nosso empenho de cristãos e religiosos.
Deus é quem aponta os caminhos e, certamente, os seus caminhos não são os nossos. Santidade, gostávamos de tê-lo sempre connosco, para continuar a ouvir a sua voz de Pastor que nos dava segurança e nos animava a atravessar as encruzilhadas escuras da vida. Saiba que estamos vivendo com dor a sua decisão de se retirar, mas nas suas palavras sentimos ressoar aquelas de Jesus aos seus discípulos: “Se me amasseis, alegrar-vos-íeis porque vou para o Pai”. Estamos certos de que, como Jesus, também o senhor, Santidade, ao retirar-se, nos comunica o Espírito que o acompanhou das manhãs frescas da sua infância ao entardecer destas últimos anos.
Conte com a nossa pobre oração. É a única maneira em que podemos exprimir-lhe a nossa gratidão pela missão que desempenhou com valor, com dignidade, com firmeza e, sobretudo, com verdadeira humildade. O seu testemunho anima-nos a dar a vida num momento de carência tão grande para a Igreja. Como dizia Santa Teresa: “Ditosas vidas que nisto se esgotarem”!
Encomendamos as suas intenções a Maria, Rainha e Mãe do Carmelo, que sempre nos conduz a Jesus, em cujo obséquio queremos viver.

P. Saverio Cannistrà
Roma, 12 de Fevereiro de 2013

Muito obrigado

Santidade: Muito obrigado, de todo o coração!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

14 de Fevereiro

S. Cirilo e São Metódio,
co-Padroeiros da Europa
 
«Filhos do Oriente, bizantinos por pátria, gregos por origem, romanos por missão, eslavos pelos frutos apostólicos.»
 
Papa Pio XI

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Lembra-te

«Lembra-te homem que és pó e que em pó te hás-de tornar.»
Gen 3, 19

Quarta-feira de cinzas


    I
Porque não mais espero retornar
Porque não espero
Porque não espero retornar
A este invejando-lhe o dom e àquele o seu projeto
Não mais me empenho no .empenho de tais coisas
(Por que abriria a velha águia suas asas?)
Por que lamentaria eu, afinal,
O esvaído poder do reino trivial?

Porque não mais espero conhecer
A vacilante glória da hora positiva
Porque não penso mais
Porque sei que nada saberei
Do único poder fugaz e verdadeiro
Porque não posso beber
Lá, onde as árvores florescem e as fontes rumorejam,
Pois lá nada retorna à sua forma

Porque sei que o tempo é sempre o tempo
E que o espaço é sempre o espaço apenas
E que o real somente o é dentro de um tempo
E apenas para o espaço que o contém
Alegro-me de serem as coisas o que são
E renuncio à face abençoada
E renuncio à voz
Porque esperar não posso mais
E assim me alegro, por ter de alguma coisa edificar
De que me possa depois rejubilar

E rogo a Deus que de nós se compadeça
E rogo a Deus porque esquecer desejo
Estas coisas que comigo por demais discuto
Por demais explico
Porque não mais espero retornar
Que estas palavras afinal respondam
Por tudo o que foi feito e que refeito não será
E que a sentença por demais não pese sobre nós

Porque estas asas de voar já se esqueceram
E no ar apenas são andrajos que se arqueiam
No ar agora cabalmente exíguo e seco
Mais exíguo e mais seco que o desejo
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego.

Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte
Rogai por nós agora e na hora de nossa morte.

    II
Senhora, três leopardos brancos sob um zimbro
Ao frescor do dia repousavam, saciados
De meus braços meu coração meu fígado e do que havia
Na esfera oca do meu crânio. E disse Deus:
Viverão tais ossos? Tais ossos
Viverão? E o que pulsara outrora
Nos ossos (secos agora) disse num cicio:
~raças à bondade desta Dama
E à sua beleza, e porque ela
A meditar venera a Virgem,
É que em fulgor resplandecemos. E eu que estou aqui
         dissimulado
Meus feitos ofereço ao esquecimento, e consagro meu amor
Aos herdeiros do deserto e aos frutos ressequidos.
Isto é o que preserva
Minhas vísceras a fonte de meus olhos e as partes indigestas
Que os leopardos rejeitaram. A Dama retirou-se
De branco vestida, orando, de branco vestida.
Que a brancura dos ossos resgate o esquecimento.
A vida os excluiu. Como esquecido fui
E preferi que o fosse, também quero esquecer
Assim contrito, absorto em devoção. E disse Deus:
Profetiza ao vento e ao vento apenas, pois somente
O vento escutará. E os ossos cantaram em uníssono
Com o estribilho dos grilos, sussurrando:~

Senhora dos silêncios
Serena e aflita
Lacerada e indivisa
Rosa da memória
Rosa do oblívio
Exânime e instigante
Atormentada tranqüila
A única Rosa em que
Consiste agora o jardim
Onde todo amor termina
Extinto o tormento
Do amor insatisfeito
Da aflição maior ainda
Do amor já satisfeito
Fim da infinita
jornada sem termo
Conclusão de tudo
O que não finda
Fala sem palavra
E palavra sem fala
Louvemos a Mãe
Pelo Jardim
Onde todo amor termina.

Cantavam os ossos sob um zimbro, dispersos e alvadios,
Alegramo-nos de estar aqui dispersos,
Pois uns aos outros bem nenhum fazíamos,
Sob uma árvore ao frescor do ~a, com a bênção das areias,
Esquecendo uns aos outros e a nós próprios, reunidos
Na quietude do deserto. Eis a terra
Que dividireis conforme a sorte. E partilha ou comunhão
Não importam. Eis a terra. Nossa herança.

    III
Na primeira volta da segunda escada
Voltei-me e vi lá embaixo
O mesmo vulto enrodilhado ao corrimão
Sob os miasmas que no fétido ar boiavam
Combatendo o demônio das escadas, oculto
Em dúbia face de esperança e desespero.

Na segunda volta da segunda escada
Deixei-os entrançados, rodopiando lá embaixo;
Nenhuma face mais na escada em trevas,
Carcomida e úmida, como a boca
Imprestável e babugenta de um ancião,
Ou a goela serrilhada de um velho tubarão.

Na primeira volta da terceira escada
Uma túmida ventana se rompia como um figo
E além do espinheiro em flor e da cena pastoril
A silhueta espadaúda de verde e azul vestida
Encantava maio com uma flauta antiga.
Doce é o cabelo em desalinho, os fios castanhos
Tangidos por um sopro sobre os lábios,
Cabelos castanhos e lilases;
Frêmito, música de flauta, pausas e passos
Do espírito a subir pela terceira escada,
Esmorecendo, esmorecendo; esforço
Para além da esperança e do desespero
Galgando a terça escala.

Senhor, eu não sou digno
Senhor, eu não sou digno
                              mas dizei somente uma palavra.

    IV
Quem caminhou entre o violeta e o violeta
Quem caminhou por entre
Os vários renques de verdes diferentes
De azul e branco, as cores de Maria,
Falando sobre coisas triviais
Na ignorância e no saber da dor eterna
Quem se moveu por entre os outros e como eles caminhou
Quem pois revigorou as fontes e as nascentes tornou puras

Tornou fresca a rocha seca e solidez deu às areias
De azul das esporinhas, a azul cor de Maria,
Sovegna vos

Eis os anos que permeiam, arrebatando
Flautas e violinos, restituindo
Aquela que no tempo flui entre o sono e a vigília, oculta

Nas brancas dobras de luz que em torno dela se embainham.
Os novos anos se avizinham, revivendo
Através de uma faiscante nuvem de lágrimas, os anos,
      resgatando
Com um verso novo antigas rimas. Redimem
O tempo, redimem
A indecifrada visão do sonho mais sublime
Enquanto ajaezados unicórnios a essa de ouro conduzem.

A irmã silenciosa em véus brancos e azuis
Por entre os teixos, atrás do deus do jardim,
Cuja flauta emudeceu, inclina a fronte e persigna-se
Mas sem dizer palavra alguma

Mas a fonte jorrou e rente ao solo o pássaro cantou
Redimem o tempo, redimem o sonho
O indício da palavra inaudita, inexpressa

Até que o vento, sacudindo o teixo,
Acorde um coro de murmúrios
E depois disto nosso exílio

    V
Se a palavra perdida se perdeu, se a palavra usada se gastou
Se a palavra inaudita e inexpressa
Inexpressa e inaudita permanece, então
Inexpressa a palavra ainda perdura, o inaudito Verbo,
O Verbo sem palavra, o Verbo
Nas entranhas do mundo e ao mundo oferto;
E a luz nas trevas fulgurou
E contra o Verbo o mundo inquieto ainda arremete
Rodopiando em torno do silente Verbo.

                          Ó meu povo, que te fiz eu.

Onde encontrar a palavra, onde a palavra
Ressoará? Não aqui, onde o silêncio foi-lhe escasso
Não sobre o mar ou sobre as ilhas,
Ou sobre o continente, não no deserto ou na úmida planície.
Para aqueles que nas trevas caminham noite e dia
Tempo justo e justo espaço aqui não existem
Nenhum sítio abençoado para os que a face evitam
Nenhum tempo de júbilo para os que caminham
A renegar a voz em meio aos uivos do alarido

Rezará a irmã velada por aqueles
Que nas trevas caminham, que escolhem e depois te desafiam,
Dilacerados entre estação e estação, entre tempo e tempo, entre
Hora e hora, palavra e palavra, poder e poder, por aqueles
Que esperam na escuridão? Rezará a irmã velada
Pelas crianças no portão
Por aqueles que se querem imóveis e orar não podem:
Orai por aqueles que escolhem e desafiam

                       Ó meu povo, que te fiz eu.

Rezará a irmã velada, entre os esguios
Teixos, por aqueles que a ofendem
E sem poder arrepender-se ao pânico se rendem
E o mundo afrontam e entre as rochas negam?
No derradeiro deserto entre as últimas rochas azuis
O deserto no jardim o jardim no deserto
Da secura, cuspindo a murcha semente da maçã.

                     Ó meu povo.
    VI
Conquanto não espere mais voltar
Conquanto não espere
Conquanto não espere voltar

Flutuando entre o lucro e o prejuízo
Neste breve trânsito em que os sonhos se entrecruzam
No crepúsculo encruzilhado de sonhos entre o nascimento e a
      morte
( Abençoai-me pai) conquanto agora
Já não deseje mais tais coisas desejar
Da janela debruçada sobre a margem de granito
Brancas velas voam para o mar, voando rumo ao largo
Invioladas asas

E o perdido coração enrija e rejubila-se
No lilás perdido e nas perdidas vozes do mar
E o quebradiço espírito se anima em rebeldia
Ante a arqueada virga-áurea e a perdida maresia
Anima-se a reconquistar
O grito da codorniz e o corrupio da pildra
E o olho cego então concebe
Formas vazias entre as partas de marfim
E a maresia reaviva o odor salgado das areias

Eis o tempo da tensão entre nascimento e morte
O lugar de solidão em que três sonhos se cruzam
Entre rochas azuis
Mas quando as vozes do instigado teixo emudecerem
Que outro teixo sacudido seja e possa responder.

Irmã bendita, santa mãe, espírito da fonte e do jardim,
Não permiti que entre calúnias a nós próprios enganemos
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego
Mesmo entre estas rochas,
Nossa paz em Sua vontade
E mesmo entre estas rochas
Mãe, irmã
E espírito do rio, espírito do mar,
Não permiti que separado eu seja
      E que meu grito chegue a Ti.

T. S. Eliot, 1888 - 1985
Tradução de Ivan Junqueira.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Cinzas

O primeiro dia da Quaresma é a Quartra-feira de cinzas. Este dia é uma data com especial significado para a comunidade cristã. A data é um símbolo do dever da conversão e da mudança de vida. Ela nos recorda a passageira fragilidade da vida humana, sujeita à morte. Sucede à terça-feira de Carnaval e é o primeiro dos 40 dias entre essa terça-feira e a sexta-feira Santa anterior ao domingo de Páscoa.A origem deste nome é puramente cristã. Neste dia, é celebrada a tradicional Missa das Cinzas. As cinzas utilizadas neste ritual provêm da queima dos ramos abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior. A estas cinzas mistura-se água benta. De acordo com a tradição, o celebrante desta cerimónia utiliza essas cinzas húmidas para sinalizar uma cruz na fronte de cada fiel, proferindo a frase “Lembra-te que és pó e que ao pó voltarás!” ou a frase “Converte-te e acredita no Evangelho!”.

Oremos
Concedei-nos, Senhor, a graça de começar com santo jejum este tempo da Quaresma, para que, no combate contra o espírito do mal, sejamos fortalecidos com o auxílio da temperança. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Mensagem de Bento XVI para a Quaresma (e IV)


  Crer na caridade suscita caridade
«Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele» (1 Jo 4, 16)
 
4. Prioridade da fé, primazia da caridade
Como todo o dom de Deus, a fé e a caridade remetem para a acção do mesmo e único Espírito Santo (cf. 1 Cor 13), aquele Espírito que em nós clama:«Abbá! – Pai!» (Gl 4, 6), e que nos faz dizer: «Jesus é Senhor!» (1 Cor 12, 3) e «Maranatha! – Vem, Senhor!» (1 Cor 16, 22; Ap 22, 20).
Enquanto dom e resposta, a fé faz-nos conhecer a verdade de Cristo como Amor encarnado e crucificado, adesão plena e perfeita à vontade do Pai e infinita misericórdia divina para com o próximo; a fé radica no coração e na mente a firme convicção de que precisamente este Amor é a única realidade vitoriosa sobre o mal e a morte. A fé convida-nos a olhar o futuro com a virtude da esperança, na expectativa confiante de que a vitória do amor de Cristo chegue à sua plenitude. Por sua vez, a caridade faz-nos entrar no amor de Deus manifestado em Cristo, faz-nos aderir de modo pessoal e existencial à doação total e sem reservas de Jesus ao Pai e aos irmãos. Infundindo em nós a caridade, o Espírito Santo torna-nos participantes da dedicação própria de Jesus: filial em relação a Deus e fraterna em relação a cada ser humano (cf. Rm 5, 5).
A relação entre estas duas virtudes é análoga à que existe entre dois sacramentos fundamentais da Igreja: o Baptismo e a Eucaristia. O Baptismo (sacramentum fidei) precede a Eucaristia (sacramentum caritatis), mas está orientado para ela, que constitui a plenitude do caminho cristão. De maneira análoga, a fé precede a caridade, mas só se revela genuína se for coroada por ela. Tudo inicia do acolhimento humilde da fé («saber-se amado por Deus»), mas deve chegar à verdade da caridade («saber amar a Deus e ao próximo»), que permanece para sempre, como coroamento de todas as virtudes (cf. 1 Cor 13, 13).
Caríssimos irmãos e irmãs, neste tempo de Quaresma, em que nos preparamos para celebrar o evento da Cruz e da Ressurreição, no qual o Amor de Deus redimiu o mundo e iluminou a história, desejo a todos vós que vivais este tempo precioso reavivando a fé em Jesus Cristo, para entrar no seu próprio circuito de amor ao Pai e a cada irmão e irmã que encontramos na nossa vida. Por isto elevo a minha oração a Deus, enquanto invoco sobre cada um e sobre cada comunidade a Bênção do Senhor!
 
Vaticano, 15 de Outubro de 2012
Benedictus PP. XVI

Falecimento da Irmã Maria da Graça de São José


Faleceu ontem a Irmã Maria da Graça de São José, do Carmelo de Cristo Redentor. Paz à sua alama. Por ela a nossa oração. O funeral realiza-se hoje pelas 16:00h, na capela do Carmelo.

Ontem


Ontem cairam dois raios sobre o Vaticano.

Uma outra maneira de ver (II)


Mensagem de Bento XVI para a Quaresma (III)

Crer na caridade suscita caridade
«Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele» (1 Jo 4, 16)
 
3. O entrelaçamento indissolúvel de fé e caridade
À luz de quanto foi dito, torna-se claro que nunca podemos separar e menos ainda contrapor fé e caridade. Estas duas virtudes teologais estão intimamente unidas, e seria errado ver entre elas um contraste ou uma «dialética». Na realidade, se, por um lado, é redutiva a posição de quem acentua de tal maneira o carácter prioritário e decisivo da fé que acaba por subestimar ou quase desprezar as obras concretas da caridade reduzindo-a a um genérico humanitarismo, por outro é igualmente redutivo defender uma exagerada supremacia da caridade e sua operactividade, pensando que as obras substituem a fé. Para uma vida espiritual sã, é necessário evitar tanto o fideísmo como o activismo moralista.
A existência cristã consiste num contínuo subir ao monte do encontro com Deus e depois voltar a descer, trazendo o amor e a força que daí derivam, para servir os nossos irmãos e irmãs com o próprio amor de Deus. Na Sagrada Escritura, vemos como o zelo dos Apóstolos pelo anúncio do Evangelho, que suscita a fé, está estreitamente ligado com a amorosa solicitude pelo serviço dos pobres (cf. At 6, 1-4). Na Igreja, devem coexistir e integrar-se contemplação e acção, de certa forma simbolizadas nas figuras evangélicas das irmãs Maria e Marta (cf. Lc 10, 38-42). A prioridade cabe sempre à relação com Deus, e a verdadeira partilha evangélica deve radicar-se na fé (cf. Catequese na Audiência geral de 25 de abril de 2012). De facto, por vezes tende-se a circunscrever a palavra «caridade» à solidariedade ou à mera ajuda humanitária; é importante recordar, ao invés, que a maior obra de caridade é precisamente a evangelização, ou seja, o «serviço da Palavra». Não há acção mais benéfica e, por conseguinte, caritativa com o próximo do que repartir-lhe o pão da Palavra de Deus, fazê-lo participante da Boa Nova do Evangelho, introduzi-lo no relacionamento com Deus: a evangelização é a promoção mais alta e integral da pessoa humana. Como escreveu o Servo de Deus Papa Paulo VI, na Encíclica Populorum progressio, o anúncio de Cristo é o primeiro e principal factor de desenvolvimento (cf. n. 16). A verdade primordial do amor de Deus por nós, vivida e anunciada, é que abre a nossa existência ao acolhimento deste amor e torna possível o desenvolvimento integral da humanidade e de cada homem (cf. Enc. Caritas in veritate, 8).
Essencialmente, tudo parte do Amor e tende para o Amor. O amor gratuito de Deus é-nos dado a conhecer por meio do anúncio do Evangelho. Se o acolhermos com fé, recebemos aquele primeiro e indispensável contacto com o divino que é capaz de nos fazer «enamorar do Amor», para depois habitar e crescer neste Amor e comunicá-lo com alegria aos outros.
A propósito da relação entre fé e obras de caridade, há um texto na Carta de São Paulo aos Efésios que a resume talvez do melhor modo: «É pela graça que estais salvos, por meio da fé. E isto não vem de vós; é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie. Porque nós fomos feitos por Ele, criados em Cristo Jesus, para vivermos na prática das boas acções que Deus de antemão preparou para nelas caminharmos» (2, 8-10).
Daqui se deduz que toda a iniciativa salvífica vem de Deus, da sua graça, do seu perdão acolhido na fé; mas tal iniciativa, longe de limitar a nossa liberdade e responsabilidade, torna-as mais autênticas e orienta-as para as obras da caridade. Estas não são fruto principalmente do esforço humano, de que vangloriar-se, mas nascem da própria fé, brotam da graça que Deus oferece em abundância. Uma fé sem obras é como uma árvore sem frutos: estas duas virtudes implicam-se mutuamente. A Quaresma, com as indicações que dá tradicionalmente para a vida cristã, convida-nos precisamente a alimentar a fé com uma escuta mais atenta e prolongada da Palavra de Deus e a participação nos Sacramentos e, ao mesmo tempo, a crescer na caridade, no amor a Deus e ao próximo, nomeadamente através do jejum, da penitência e da esmola.

Uma outra maneira de ver


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Máscaras e mascarados


«Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Fiz de mim o que não soube… E o que podia fazer de mim não o fiz. O dominó que vesti era errado. Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, estava pegada à cara. Quando a tirei e me vi ao espelho, já tinha envelhecido...»
 

Álvaro de Campos

Legado

 
Entre os muitos trabalhos que Joseph Ratzinger-Bento XVI  deixa para a posteridade, dois são inegáveis: 1) O Catecismo da Igreja Católica (foi ele que presidiu à Comissão que presidiu à redacção titánica desta obra); 2) OS três volumes sobre a vida de Jesus de Nazaré.

Obrigado


Novo papa em Março?

As palavras de renúncia de Bento XVI:

Caríssimos Irmãos,
convoquei-vos para este Consistório não só por causa das três canonizações, mas também para vos comunicar uma decisão de grande importância para a vida da Igreja. Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idóneas para exercer adequadamente o ministério petrino. Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado. Por isso, bem consciente da gravidade deste acto, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos Cardeais em 19 de Abril de 2005, pelo que, a partir de 28 de Fevereiro de 2013, às 20,00 horas, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice.
Caríssimos Irmãos, verdadeiramente de coração vos agradeço por todo o amor e a fadiga com que carregastes comigo o peso do meu ministério, e peço perdão por todos os meus defeitos. Agora confiemos a Santa Igreja à solicitude do seu Pastor Supremo, Nosso Senhor Jesus Cristo, e peçamos a Maria, sua Mãe Santíssima, que assista, com a sua bondade materna, os Padres Cardeais na eleição do novo Sumo Pontífice. Pelo que me diz respeito, nomeadamente no futuro, quero servir de todo o coração, com uma vida consagrada à oração, a Santa Igreja de Deus.

Retirado num mosteiro de clausura


Bento XVI não participará no próximo conclave que elegerá o seu sucessor. Logo a seguir à sua resignação e com o innício de Sede Vacante Bento XVI retira-se para Castelgandolfo e depois para um mosteiro de clausura dentrod o Vaticano.

Já não tenho forças

O Papa Bento XVI será o quarto papa da história a resignar. Antes dele resignaram Bento IX (1048); Celestino V (1294); Gregório XII (1515).
As palavras com que Bento XVI deu a conhecer a sua decisão foram: «Por causa da minha idade avançada já não tenho forças para exercer adequadamente o ministério petrino. Tenho de reconhecer a minha incapacidade para exercer bem o ministério que me foi pedido.»
Hoje mais que nunca rezemos pelo nosso Papa Bento XVI.

No Dia Mundial do Doente


Papa resignará no fim de Fevereiro

 
Um papa sem medo!
 
Bento XVI anunciou hoje numa reunião com cardeais sua decisão de resignar ao cargo a partir do dia 28 de fevereiro, abrindo assim caminho para a eleição de um novo Papa. "Cheguei à conclusão de que as minhas forças, por causa da idade avançado, já não são adequados para exercer de forma apropriada o ministério petrino", refere, num texto publicado pela Rádio Vaticano. O Papa revelou a sua decisão durante o consistório (encontro com cardeais) que tinha sido convocado para decidir três causas de canonização. Bento XVI admitiu que este é um momento "de grande importância para a vida da Igreja" e diz ter chegado à conclusão de ser melhor resignar "após ter repetidamente examinado a minha consciência diante da Deus". Joseph Ratzinger, que foi eleito em abril de 2005 para suceder a João Paulo II, vai completar 86 anos de idade dentro de 2 meses. A partir das 20h00 (menos uma em Lisboa) do dia 28 de fevereiro, a Igreja fica em estado de "Sé Vacante", sendo convocado um Conclave para a eleição de um novo Papa.
 
Fonte: Ecclesia.

Chama do Carmo_175

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Para o dia Dia mundial do doente


O Ano da fé, que estamos a viver, constitui uma ocasião propícia para se intensificar o serviço da caridade nas nossas comunidades eclesiais, de modo que cada um seja bom samaritano para o outro, para quem vive ao nosso lado. A propósito, desejo recordar algumas figuras, dentre as inúmeras na história da Igreja, que ajudaram as pessoas doentes a valorizar o sofrimento no plano humano e espiritual, para que sirvam de exemplo e estímulo. Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, «perita da scientia amoris», soube viver «em profunda união com a Paixão de Jesus» a doença que a levou «à morte através de grandes sofrimentos».

Bento XVI

Arrisca-te!

«Deus não olha assim tanto à qualidade dos chamados, mas mais à sua fé!»
(Bento XVI)

Feliz Domingo


Andrés Miguel Dominguez

Deus vai ao Carnaval do Rio

Numa análise atenta aos sambas das 12 agremiações do Grupo Especial do carnaval carioca, revela que, em 2013, as referências a Deus são abundantes.
O resultado surpreende. A chamada «festa mais profana do planeta», mostra que «Deus» está em alta!
Só perde para o tradicional grito dos puxadores «Vaaaaaai». Mas essa não é parte dos sambas, apenas ajuda na marcação do tempo.
A segur a «Deus» vêm «coração», «emoção» e «mistério» são os termos mais populares.
Isso não significa que existe um sentido de adoração ou louvor, mas ressalta que existe uma espiritualidade intrínseca que muitas vezes passa despercebida aos foliões.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Oração


 
Ó Amor puro, sincero e perfeito,
Ó Luz eterna, ó Jesus:

Dá-me luz,
a fim de que nela eu reconheça a Tua Luz.

Dá-me a tua Luz,
a fim de que eu veja o teu amor.

Dá-me a Tua luz,
a fim de que eu veja o coração de Teu Pai!

Dá-me um coração para Te amar,
Dá-me olhos, para Te ver,
Dá-me ouvidos, para escutar a Tua Voz,
Dá-me lábios, para falar de Ti,
Dá-me gosto, para Te saborear.
Dá-me olfacto, para sentir o Teu perfume,
Dá-me mãos para Te tocar
E pés para Te seguir.

Na terra e nos céus,
só a Ti, desejo, meu Deus!

Só Tu és o meu desejo,
a minha consolação,
e o fim de toda a angústia
e de todo o sofrimento!

A. Gonçalo

Um homem que morreu homem

Fora eu político e seria um optimista. (Ao menos no tempo anterior às eleições!) Diria que sim, que sim, que sim, sempre. Mesmo que ao longe já se visse o pó ou o fumo anunciando a chegada do Cavalo da Troika. Mas eu haveria de apregoar que o futuro existe e sorriria a todos, que todos são patriotas e belos e com futuro risonho pela frente. Não veria alguém com defeito, e a eito só veria pessoal com potencial! Precisasse eu de ser eleito e era o que diria. Precisasse de agradar a superiores ou a associados e a colaboradores, diria que todos são uns amores. Seria tudo na maior.
A exigência seria para os demais; para mim e para os próximos, o El Dorado. Mas afinal, nem eu negaria a lei geral que afirma que o futuro é imprevisível, e nem sequer sorri sempre aos escolhidos. Tudo será fácil, tudo será permitido, todos lá hão-de chegar é uma promessa que nem sempre se deve dar. Mas alguns chegam sem ninguém esperar...
Desculpem que vos fale de um morto. Bem, já não é bem um morto, porque ressuscitou. Mas na minha memória e na de alguns está tudo tão fresco, que ele ainda está morto.
Toda a morte chega sem aviso, mesmo que de  há meses seja visível na cara a segadeira da morte. (Mas, enfim, nunca ninguém se crê maduro e pronto para a ceifa, embora o tempo para todos passe e cada vez mais nítido vejamos a reluzente ferramenta à porta, quando não à cabeceira!)
Quando entro na igreja para rezar, e visto que normalmente fico de frente para a assembleia, eu rezo e canto e falo e vejo e oiço. Existem, por isso, rostos que me são familiares, pois, diária ou semanalmente, me acompanham durante um pedaço de caminho em que rezo publicamente, e eu com eles, sem deles nem o nome nem nada saber. Acontece.
E aconteceu. Determinado rapaz vinha rezar a determinada Missa do Carmo. Não havia nele razão alguma para nele reparar a não ser os seus cabelos grandes, mas não tão grandes como a sua serenidade e a sua paz, a sua devoção escorreita, a postura digna e serena e até o seu correcto sentido de comunidade.
Vinha também rezar o Mês de Maio.
Em Setembro de 2011 veio falar comigo. E fiquei a conhecer a jóia de rapaz que ele era. Chamava-se Vítor, tinha iniciado os trintas mas parecia mais velho. Contou-me a história, longa história. Uma história daquelas em que perdemos o amor às horas e ficamos a ouvir.
Sentira o apelo para fazer o Crisma. Já o sentira antes, mas agora que ouvira o convite a inscrever-se na formação próxima quis ver se era possível para ele também. Era. Pus-lhe uma condição; e em boa hora lha pus: que fosse à Comunidade de Inserção — era um utente do GAF! — e trouxesse um amigo que julgasse escorreito. Ele foi e trouxe o Bruno. Desde aquele dia julguei que deveria ser confirmado na fé: O homem era um missionário!
Esta foi a sua história que ele me contou e eu dispo de pormenores para caber na folha.
Fora drogado, consumidor de drogas duras durante 15 anos. Por isso parecia tão velho! O percurso da sua vida, ainda que alienado e estuporado, fez-lhe ver que aquilo não ia bem. Mas quem daria mão, pensava ele, a um trapo mau e drogado? Um dia convenceu-se e encaminhou-se para a Segurança Social. Disseram-lhe ali que solução solução, só na Comunidade de Inserção mas que esperasse sentado. Se tinha problemas com os consumos o problema era dele. O dia viria quando viesse.
E um dia o dia chegou. E deu entrada na Comunidade. As coisas não vinham muito direitas, mas havia motivação e isso ajudou. Foi aí que voltou à Missa, e a rezar. A trabalhar e a ganhar o seu salário. E pouco a pouco a querer ser mais de Jesus. E a crismar-se.
De todos os encontros falhou um ou dois. Coisa de somenos. Achei-o engraçado, motivado, conhecedor das coisas da Igreja, envolvido com Jesus, a gostar das coisas que sabemos que Ele gosta, e dos Seus amigos.
Um dia fomos todos para retiro, para a Casa do Menino Jesus. Foi para Ele um encanto maior que umas férias em Acapulco de Juaréz! Veio esfusiante. Entretanto, chegou a Páscoa e teve uma recaída. Eu temi. Re-encontrei-o e ele confessou-se. Todos sabemos que quem é picado por tal cobra lhe fica sempre com um dívida! Por fim, chegou Pentecostes, o dia do Crisma, e ele lá foi solene e solene se apresentou com o Padrinho ao Bispo.
(E como ele gostou do abraço do Bispo!)
Uns meses depois assaltou-o um cancro. Andou por ali num seria não seria. Era e era mesmo. Deixou de trabalhar e apresentava-se pontualmente às consultas. Mas não havia mesmo nada a fazer. E não houve...
Em cinco meses foi-se. Foi-se sem queixas, embora não compreendesse (nem eu, nem muitos!) porque tinha de ir-se, porque tinha de abandonar a filha, logo agora «que estava a endireitar-se e podia ajudá-la a crescer!».
Porque têm de suceder as coisas assim? Porque é que Quem tem a chave da arca destes segredos assim faz as coisas? Porque é que não nos diz nada, ou pelo menos não o diz em alfabeto que entendamos?
Ontem fomos a Santa Marta de Portuzelo enterrar o seu corpo. A igreja não encheu, mas eu já vi o Bispo a presidir lá a uma festa e a igreja também não encheu!
Ontem fomos a Santa Marta. Eu vi lá o Pároco Pe Valdemiro, as Irmandades, o Grupo Coral, os Ministros e os Leitores, o Juiz da Cruz, e as gentes garbosas e chorosas de Santa Marta. Eu vi a família, menos o pai que morrera há vinte e oito dias. E vi o Carmo Jovem, o Gaf e a Comunidade de Inserção. E mais um outro punhado de amigos.
Cada um a seu jeito lhe prestou homenagem e preito. Mereceu-o. E nós também.
No dia seis enterrámos um homem que não foi sempre bom. Mas que nos deixou a lição de que é possível erguer-se do chão ou do abismo do erro e do lameiro da autodestruição, e voltar a ser homem e cidadão, pai e fiel da Igreja. Não me peçam que explique o milagre. Eu só sei que o milagre aconteceu e que nós nos apercebemos dele demasiado tarde! Infelizmente somos assim, de umbigos exageradamente grandes! Tão grandes que não dá para ver o milagre a acontecer quando ele acontece!
Deus a quem entreviste na terra e na terra achaste razões para O amar e conhecer, te recompense, a ti, Vítor Hugo Meixedo Moreira, a quem deveríamos agradecer por nos teres mostrado o milagre de ser homem imperfeito, mas homem. Homem santo de talha inacabada. Missionário e intercessor. A ti não te colocarão nunca num altar, mas os que precisarem de mudar, olhem bem para ti, porque foste e vieste a ser modelo; e te recordem como homem de garra e mudança para o bem. Porque sim, porque, afinal, o triunfo está mesmo ao nosso alcance! Digo-o eu que não sou político nem publicitário. Digo-o eu que vi morrer um homem (imperfeito) como homem!

Chama do Carmo I NS 175 I Fevereiro 10 2013

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Retiro Espiritual


Mensagem de Bento XVI para a Quaresma


Crer na caridade suscita caridade
«Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele» (1 Jo 4, 16)


2. A caridade como vida na fé
Toda a vida cristã consiste em responder ao amor de Deus. A primeira resposta é precisamente a fé como acolhimento, cheio de admiração e gratidão, de uma iniciativa divina inaudita que nos precede e solicita; e o «sim» da fé assinala o início de uma luminosa história de amizade com o Senhor, que enche e dá sentido pleno a toda a nossa vida. Mas Deus não se contenta com o nosso acolhimento do seu amor gratuito; não Se limita a amar-nos, mas quer atrair-nos a Si, transformar-nos de modo tão profundo que nos leve a dizer, como São Paulo: Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim (cf. Gl 2, 20). Quando damos espaço ao amor de Deus, tornamo-nos semelhantes a Ele, participantes da sua própria caridade.
Abrirmo-nos ao seu amor significa deixar que Ele viva em nós e nos leve a amar com Ele, n'Ele e como Ele; só então a nossa fé se torna verdadeiramente uma «fé que atua pelo amor» (Gl 5,6) e Ele vem habitar em nós (cf. 1 Jo 4, 12). A fé é conhecer a verdade e aderir a ela (cf. 1 Tm 2, 4); a caridade é «caminhar» na verdade (cf. Ef 4, 15). Pela fé, entra-se na amizade com o Senhor; pela caridade, vive-se e cultiva-se esta amizade (cf. Jo 15, 14-15).
A fé faz-nos acolher o mandamento do nosso Mestre e Senhor; a caridade dá-nos a felicidade de pô-lo em prática (cf. Jo 13, 13-17). Na fé, somos gerados como filhos de Deus (cf. Jo 1, 12-13); a caridade faz-nos perseverar na filiação divina de modo concreto, produzindo o fruto do Espírito Santo (cf. Gl 5, 22). A fé faz-nos reconhecer os dons que o Deus bom e generoso nos confia; a caridade fá-los frutificar (cf. Mt 25, 14-30).



Mensagem de Bento XVI para a Quaresma

Crer na caridade suscita caridade
«Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele» (1 Jo 4, 16)

Queridos irmãos e irmãs!
A celebração da Quaresma, no contexto do Ano da fé, proporciona-nos uma preciosa ocasião para meditar sobre a relação entre fé e caridade: entre o crer em Deus, no Deus de Jesus Cristo, e o amor, que é fruto da acção do Espírito Santo e nos guia por um caminho de dedicação a Deus e aos outros.
1. A fé como resposta ao amor de Deus
Na minha primeira Encíclica, deixei já alguns elementos que permitem individuar a estreita ligação entre estas duas virtudes teologais: a fé e a caridade. Partindo duma afirmação fundamental do apóstolo João: «Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele» (1 Jo 4, 16), recordava que, «no início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo. (...) Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos (cf. 1 Jo 4, 10), agora o amor já não é apenas um “mandamento”, mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro» (Deus caritas est, 1). A fé constitui aquela adesão pessoal – que engloba todas as nossas faculdades - à revelação do amor gratuito e «apaixonado» que Deus tem por nós e que se manifesta plenamente em Jesus Cristo. O encontro com Deus Amor envolve não só o coração, mas também o intelecto: «O reconhecimento do Deus vivo é um caminho para o amor, e o sim da nossa vontade à d’Ele une intelecto, vontade e sentimento no ato globalizante do amor. Mas isto é um processo que permanece continuamente a caminho: o amor nunca está "concluído" e completado» (ibid., 17). Daqui deriva, para todos os cristãos e em particular para os «agentes da caridade», a necessidade da fé, daquele «encontro com Deus em Cristo que suscite neles o amor e abra o seu íntimo ao outro, de tal modo que, para eles, o amor do próximo já não seja um mandamento por assim dizer imposto de fora, mas uma consequência resultante da sua fé que se torna operativa pelo amor» (ibid., 31). O cristão é uma pessoa conquistada pelo amor de Cristo e, movido por este amor - «caritas Christi urget nos» (2 Cor 5, 14) -, está aberto de modo profundo e concreto ao amor do próximo (cf. ibid., 33). Esta atitude nasce, antes de tudo, da consciência de ser amados, perdoados e mesmo servidos pelo Senhor, que Se inclina para lavar os pés dos Apóstolos e Se oferece a Si mesmo na cruz para atrair a humanidade ao amor de Deus.
«A fé mostra-nos o Deus que entregou o seu Filho por nós e assim gera em nós a certeza vitoriosa de que isto é mesmo verdade: Deus é amor! (...) A fé, que toma consciência do amor de Deus revelado no coração trespassado de Jesus na cruz, suscita por sua vez o amor. Aquele amor divino é a luz – fundamentalmente, a única - que ilumina incessantemente um mundo às escuras e nos dá a coragem de viver e agir» (ibid., 39). Tudo isto nos faz compreender como o procedimento principal que distingue os cristãos é precisamente «o amor fundado sobre a fé e por ela plasmado» (ibid., 7).

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O Vítor morreu!


A notícia chegou ao início da tarde. O Vítor era da sua família, da freguesia de Santa Marta, da Comunidade de Inserção do GAF e do Carmo.
Conheci-o discreto e de cabelos longos, participando na Eucaristia das 11:30h e no Mês de Maio. Um homem de cabelos grandes nunca consegue ser discreto, mas ele queria sê-lo e esforçava-se por sê-lo mesmo continuando de cabelos grandes.
Quando re-iniciámos os encontros de preparação para o Crisma ele foi o segundo a aparecer transmitindo que a sua vida tinha mudado e agora queria ser ainda mais de Jesus. Veio. E era. Participou nos encontros durante um ano. Foi ao retiro para a Casa do Menino Jesus. Como gostou ele da casa do Menino Jesus, do ambiente do retiro, dos amigos que ali fez e lhe abriram os braços e o coração!
No dia do Crisma vi-o feliz, no Domingo de Pentecostes também! Nos encontros do Carmo Jovem estimou e foi estimado! Como ele gostava do Carmo Jovem!
Entretanto, um cancro assaltou-o. Resistiu o que pôde, mas hoje rendeu-se. O Pai chamou-o, pelo que chegou a sua vez de entrar em casa.
Que descanse em paz!

Museu carmelitano abre em Braga


Bom dia!


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Profeta Jeremias, Hoje (II)


Mas Jeremias acabava sempre reconciliando-se com Deus e convertia-se novamente, reafirmando a sua esperança de que no fim de tantas dores tudo acabaria bem. Jeremias confiava: Deus é quem governa e Dele será a vitória final
O jovem profeta Jeremias é um exemplo de coragem e fidelidade para os jovens católicos que nos dias de hoje são hostilizados nas escolas, universidades e outros ambientes, por causa da sua fé e dos seus valores cristãos.
É claro, poucos são aqueles cuja experiência de fé se identifica com a de Jeremias. A maioria, na verdade, prefere adaptar-se aos seus amigos, a quem amam mais do que a Cristo; assim, evitam proferir qualquer palavra que possa contrariar a opinião do grupo. As suas línguas são frouxas.
Muitos desses católicos frouxos vêem como demonstração de ódio qualquer palavra que expresse a justa ira. E justificam-se com chavões batidos: “Não podemos julgar ninguém”; “Cristo pregou o amor, palavras duras semeiam a divisão”; “devemos procurar viver em paz com todos…”. Segundo eles, da boca de um autêntico cristão só podem sair palavras positivas e de “paz”.
Sobre esse tipo de pessoas, Jeremias disse: “Sem responsabilidade, querem curar a ferida do meu povo, dizendo: ‘Paz! Paz!’, quando não existe paz” (Jer 6,14). Eles ignoram completamente as palavras do Mestre: “Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa.” (Mateus 10, 34-36)
Para ti que caminhas como Jeremias só tenho uma palavra: persevera! Os momentos difíceis passam todos; em breve, tu recordarás esta época de dificuldades com alegria. Lembra-te e acredita: o Senhor dar-te-á amigos cem vezes mais verdadeiros do que estes que porventura tenhas perdido.

Profeta Jeremias, hoje

Tu és jovem, católico devoto, e a tua popularidade anda em baixa na escola, na faculdade ou entre os amigos do bairro? É normal! Estranho seria se fosse diferente. Talvez tu sejas – salvas as devidas proporções – uma espécie de “Jeremias contemporâneo”.
Não há profeta na Bíblia que melhor represente a situação de muitos jovens católicos de hoje do que Jeremias. Ele sonhava em poder dar umas voltas com os amigos, sentar-se na esplanada, e ficar a falar. Enfim, queria ser um jovem normal.
Mas os planos de Deus para a sua vida eram outros…
Ainda no ventre de sua mãe, Jeremias foi escolhido e consagrado por Deus como profeta (Jer 1,5). Ao chegar à adolescência, recebeu a missão de propagar as profecias mais agoirentas de toda a história de Israel. As suas palavras saíam duras e expressavam a justa ira do Senhor. E, para o profeta, isso tinha um preço…
“Nunca me sentei numa roda alegre para me divertir. Forçado pela tua mão, sentava-me sozinho, pois encheste-me de cólera. Porque será que a minha dor não tem fim e a minha ferida é tão grave e sem remédio?” (Jer 15, 17-18)
O povo vacilava na fé em demasia, e as consequências de tanta maldade seriam nefastas. Porém, ninguém estava disposto a escutar as censuras e as previsões do profeta – tais como a destruição de Jerusalém, do templo de Salomão e o longo exílio dos hebreus na Babilónia –, e por isso o tratavam-no como um maluco fanático e inconveniente.
A Palavra de Deus, que Jeremias havia “devorado”, e era motivo para “festa e alegria” no seu coração (Jer 15, 16) tornou-se para ele uma pesada cruz. Ao longo da sua vuda Jeremias foi preso, sofreu diversas tentativas de assassinato e, por onde passava, era alvo de ofensas e zombarias. Por isso, se sentiu muitas vezes tentado a abandonar sua missão. Mas manteve a fé e perseverou.
“A palavra de Jahvé tornou-se para mim motivo de vergonha e escárnio o dia inteiro. A mim mesmo dizia: ‘Não pensarei mais n’Ele, não falarei mais no seu Nome!’Jahvé, porém, está ao meu lado como valente guerreiro. Por isso, aqueles que me perseguem tropeçarão e não conseguirão vencer…” (Jer 20, 8-11)
Como um típico jovem em crise, Jeremias amaldiçoou por mais de uma vez o dia em que nasceu. A Sua relação com Deus era dramática: os momentos de ternura e louvor se alternavam com queixas e ressentimentos. Chegou mesmo a acusar o Senhor de ser pouco confiável (Jer 15, 18).